As Melhores Coisas do Mundo

Fui pego de surpresa quando vi a propaganda de um filme nacional que estampava na capa a presença de atores desconhecidos e um ator da Malhação de nome Fiuk, Com todos esses predicados, nada mais justo que criar certo preconceito ao filme que estava por vir. Mas, depois que vi uma série cotações positivas do filme em sites que freqüento, aquela projeção me trouxe uma curiosidade que me tomou de assalto, com isso, fui obrigado a procurar informações necessárias para matar a minha curiosidade sobre o filme e se haveria a possibilidade de conferi-lo nos cinemas.

Quando vi que se tratava de Laís Bodanzky, rapidamente me veio à mente o nome dessa jovem diretora brasileira que lançou dois ótimos filmes Bicho de sete cabeças (responsável por alavancar a carreira de Rodrigo Santoro) e Chega de saudade. Com um currículo assim já se passa certa credibilidade pelo trabalho que há por vir.

E foi com esse pensamento que comecei a ler tudo que fui encontrando sobre o filme, e minha vontade de puder vê-lo nos cinemas foi aumentando a cada texto, entrevista e afins me deixavam extremamente curioso.

Com uma narrativa envolvente, As Melhores Coisas do Mundo trata de conflitos adolescentes, não os que estamos acostumados a presenciar em séries televisivas, os adolescente reais, e é nesse contexto que conhecemos Mano, personagem principal vivido por Francisco Miguez, um adolescente de 15 anos que está enfrentando todos os problemas que vêm com a idade – a cobrança dos amigos para perder a virgindade, a busca por um lugar na sociedade, a paixão não correspondida, etc. – e ainda o bônus que é ver seus pais (Denise Fraga e Zé Carlos Machado) se separarem. Seus melhores amigos são Carol (Gabriela Rocha) e Deco (Gabriel Ilanes). E seu confidente, o professor de violão Marcelo (Paulo Vilhena).

Escrito por Luiz Bolognesi, parceiro habitual (e marido) de Bodanzky, o roteiro é uma adaptação da série de livros paradidáticos “Mano” concebida por Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto, (que não conheço), que são utilizados nas escolas pelo Brasil.

Os conflitos a que os jovens passam são retratados com a veracidade que a obra exige, uma exigência que a própria diretora quis adequar a sua obra. Para se ter um toque mais realístico, o filme não tem uma historia determinada e sim vários arcos de historias que envolvem o nosso personagem principal. Grande parte do mérito disso se deu a diretora que pra coletar informações para definir que caminho percorrer ela fez sua pesquisa de campo onde passou um ano em discussões com adolescentes da classe media paulistana em escolas, onde os mesmos fizeram um pacto de não liberar informações sobre essas conversas.

Como conseqüência eles descobriram todos os dilemas que os jovens dessa fase da vida passam, a questão da aceitação perante os colegas, drogas, homossexualismos todos os assuntos possíveis.  E foi nessas rodas que a diretora conheceu os protagonistas do filme, com um elenco dominado por estreantes As Melhores Coisas do Mundo é povoado por uma galeria de rostos impossivelmente jovens e sem estragos provocados pelo tempo (embora as espinhas se façam presentes, claro), mas que, ainda assim, encarnam seus personagens com total entrega e imenso talento. Além disso, o roteiro de Bolognesi não comete o erro tão comum de construir diálogos que, buscando soar elegantes ou bem esculpidos, soariam artificiais saindo da boca daqueles atores – e, assim, quando um adolescente tenta seduzir uma colega, não consegue dizer mais do que um atrapalhado “Seus olhos… tipo, sei lá… seu jeito de falar… você é uma mina de conteúdo”. Não é Shakespeare, mas é inquestionavelmente honesto.

Mostrando-se uma película superior a seus antecessores, novamente Laís Bodanzky, foge do caminho fácil e convencional na escolha dos temas abordados em seus filmes, (estigma de filme do cinema nacional) que apenas denuncia a situação social do país.  Aliás, Bodanzky vem se revelando uma diretora cada vez mais segura, demonstrando, aqui, inteligência ao conduzir a narrativa visualmente: se nas seqüências que se passam na escola ela adota planos mais abertos que insiram os personagens ao mundo que freqüentam, imprimindo energia ao filme, em outros momentos mais pontuais ela não hesita em investir em closes que expõem os sentimentos dos personagens, como na conversa entre Denise Fraga (sempre ótima) e Miguez no carro ou no abraço emocionado entre este último e seu irmão (vivido, diga-se de passagem, com grande intensidade por Fiuk). Além disso, a cineasta é hábil ao evocar a introspecção de Mano em duas seqüências envolvendo time lapse ou ao retratar o choque e assombro do garoto ao perceber que toda a escola descobriu um segredo sobre sua família, quando então o som forte das batidas de seu coração parecem deixá-lo surdo para o mundo à sua volta.

A escolha dos protagonistas também foi acertada, para dar um toque de qualidade ao filme, Denise Fraga tem sua qualidade habitual apresentada como a mãe de fisionomia desgastada pelo tempo graças a um casamento malsucedido. Enquanto isso, Caio Blat e Paulo Vilhena, atores também jovens, curiosamente assumem papéis de figuras de autoridade, o que não deixa de se revelar uma escolha interessante: como o professor de violão de Mano, Vilhena compõe um músico tranqüilo que, ao mesmo tempo, sabe ser crítico quando necessário (ao perceber que o aluno não havia praticado em casa, ele diz: “Isso, vamos queimar a grana da família!”) – e é fácil perceber por que Mano passa a confiar nos conselhos do sujeito. Já Blat, como um professor de Física, surge como um mestre capaz de inspirar os alunos sem apelar para a autoridade, conseguindo também sugerir detalhes sobre o passado do personagem sem ter muito tempo de tela (reparem, por exemplo, como ele se mostra decepcionado ao ouvir a diretora da escola repreendendo-o por se aproximar dos alunos, numa sugestão clara de que, quando aluno da instituição, ele próprio se tornou próximo daquela profissional).

Outro fato interessante a ser tratado é a abertura do filme em que o mosaico de imagens que aparecem remetem aos estado emocional de cada personagem, fato que é uma grande sacada para se saber mais ou menos o que veremos pela frente.

Depois de nos apresentar àquele universo e ao seu jovem e imaturo herói, que não hesita em fazer uma caricatura cruel e preconceituosa de uma colega de sala ou em condenar um professor sem ter razões para isso, o filme ilustra com talento o amadurecimento daquele menino que, ao final da projeção, pode ainda estar longe de ser adulto, mas que inquestionavelmente se encontra a caminho de se tornar um belo ser humano.

Nota: 9,0

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~ por Zach em maio 14, 2010.

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