Kick Ass

O que aconteceria se um jovem adolescente decidisse seguir os passos das revistas que lê, e resolvesse da noite para o dia se tornar um herói. Simplesmente vestindo uma roupa verde de látex e com dois bastões para utilizar como arma, contra os bandidos. Essa é a simples premissa de um filme que tem tudo para virar um Cult. O filme começa com a descrição do nosso personagem, como sendo um cara simples de um subúrbio americano que divide o tempo no computador, conversas com amigos sobre quadrinhos, a efervescência adolescente aflorando e o hábito de ver TV. Como ele se define, ele não é um Nerd, não é um cara bonito, e para piorar a situação ele é o menos notado entre seus amigos, como a maioria dos jovens de hoje em dia, um Total Loser!

Inspirado na ótima graphic novel de John Romita Jr. e Mark Millar (este último responsável pelos quadrinhos que geraram O Procurado), o roteiro de Jane Goldman e do próprio Matthew Vaughn gira em torno do adolescente Dave Lizewski (Aaron Johnson), que, frustrado com a própria vida (“Eu apenas existia.”), é tão inseguro que decide se passar por gay para poder ficar próximo à garota de seus sonhos. Leitor ávido de quadrinhos, ele resolve criar um alter ego que lhe permita assumir uma postura mais determinada e é então que se apresenta ao mundo como Kick-Ass, um vigilante mascarado que logo descobre que a realidade não é tão simples quanto à ficção. Enquanto isso, somos apresentados também ao ex-policial Damon Macready (Nicholas Cage) e à sua jovem filha de 11 anos, Mindy (Chloe Moretz), que, como Dave, encarnam uma dupla de justiceiros: Big Daddy e Hit-Girl, que se dedicam a combater a quadrilha comandada pelo poderoso gângster Frank D’Amico (Mark Strong) “Cinema em Cena”.

Utilizando sem nenhuma restrição o material original, o diretor Matthew Vaughn transforma Kick Ass em interessante exercício de metalinguagem, onde isto nos é mostrado em vários momentos do longa, exemplos disso quando o rosto de D’Amico aparece no mesmo instante em que o mesmo é pintado por Big Daddy, ou até mesmo como a origem do herói nos é contada por uma narrativa em quadrinho que é simplesmente fantástica. Da mesma maneira, se o cineasta remete até mesmo às elipses típicas das graphic novels ao empregar letreiros como “Enquanto isso…”, tampouco hesita em fazer referências ao próprio Cinema, como no divertido momento em que o herói-narrador alerta o espectador para que este não o considere imbatível apenas por estar ouvindo sua voz em off.

Durante toda a projeção temos a sensação que todo o contexto da historia é perfeitamente crível, dentro da realidade que nos é mostrada nos dias de hoje, a influência que os sites de redes sociais tem na vida das pessoas, o poder que o youtube tem em fazer com que nada passe despercebido, todas essas ferramentas são mostradas na película, dando um toque até mais interessante do que a concepção nos quadrinhos. Mesmo sendo um filme juvenil, vemos a influencia dos filmes de Batman na projeção, tendo um tom muito mais realista do que o filme nos mostrava a cada informação que nos era passada durante o período de filmagem, pré e pós-produção.

Devido a todas as qualidades do filme, nada disso seria possível se o diretor Matthew Vaughn não tivesse personagens que fossem criveis durante toda a narrativa, a escolha de um nome desconhecido para fazer o protagonista foi de extrema inteligência, que, assim, funciona como uma tela em branco na qual o espectador pode facilmente se projetar – e seu jeito inseguro e sua voz trêmula de adolescente certamente contribuem para que, no mínimo, nos identifiquemos com sua vulnerabilidade constante diante de todas aquelas ameaças.  Christopher Mintz-Plasse o eterno McLovin utiliza dos maneirismos que aprendeu com seu personagem do filme Superbad para ter uma atuação apenas discreta. No entanto Nicholas Cage parece ser uma escolha certa para desempenhar o papel de Big Daddy, por ser um personagem excêntrico, e que tem extrema devoção pela filha independente da maneira como isso se manifesta. Mas a maior sacada do diretor foi à escolha de Chloe Moretz para viver os personagens de Mindy e Hit Girl, a atriz que tive a oportunidade de ver pela primeira vez em cena no filme 500 Dias com ela, que me parecia um pouco deslocada no filme, mas em Kick Ass a vemos em ação e não vejo outra atriz mirim para encarnar personagem tão complexo e com tanta perfeição, ela me lembrou a personificação de dois outros personagens, a Noiva de Kill Bill de Tarantino vivida por Uma Thurman (pela habilidade com que empunhava a espada para destroçar bandidos) com Mathilda ( pela relação de ternura com seu pai) interpretada brilhantemente por Natalie Portman. Sendo com isso o maior acerto da produção.

O diretor Matthew Vaughn, iniciou a carreira como produtor dos filmes e outro diretor inglês Guy Ritch, e teve como primeiro trabalho atrás das câmeras o filme Nem Tudo é o que Parece protagonizado pelo atual James Bond, Daniel Craig, e se mostrava um diretor de bastante capacidade na sua estréia retratando o submundo do crime inglês. Já se mostrava ter domínio de seu produto sem se perder dentro do mesmo. Não foi por conflito geográfico e de agenda, como alegou, que deixou a direção de X-Men 3, às vésperas da filmagem. Agora fica evidente que ocorreram divergências criativas. O inglês parece ser do tipo que faz questão de plantar suas próprias idéias.

Contudo Kick Ass não é um filme de fácil digestão, não pelo fato de uma criança de 11 anos proferir palavrões inclassificáveis, mas por a mesma ser treinada pelo pai para ser uma assassina fria e calculista, (fato que nós brasileiros já vimos no ótimo Cidade de Deus,de Fernando Meirelles). Dentro desse contexto o filme não se encaixa nos padrões Hollywoodianos, fato que provocou uma serie de protestos de uma minoria de pessoas que desconheciam o teor da revista em que foi baseado o filme. E também não é um filme violento como a mídia quis vender, mas como um bom produto de entretenimento, que cada vez mais é artigo raro nos dias de hoje, não tendo seu reconhecimento nos dias de hoje, mas num futuro próximo.

Nota: 8,5

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~ por Zach em julho 29, 2010.

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