Sucker Punch – Mundo Surreal

O diretor Zach Snyder, dos eficientes Madrugada dos Mortos e 300, e do incompreendido Watchmen, tem uma tendência em priorizar o visual, e é por isso considerado por muitos um visionário, exceto no seu primeiro longa, Madrugada dos Mortos. Devido a essa qualidade, conseguiu se estabelecer com segurança entre os realizadores mais bem-sucedidos da atualidade – e merecidamente, já que realmente é um diretor com um belíssimo olhar para composições e com dom para o espetáculo. Talvez movido por esta convicção, entregou Sucker Punch a um exercício entediante (em vários sentidos, como verão), parece apostar na força de suas imagens em detrimento da história, dos temas ou mesmo do puro entretenimento, criando um longa indiscutivelmente belo, mas inegavelmente vazio.

Partindo de uma idéia própria, um roteiro de sua autoria em parceria com Steve Shibuya (estreante como co-autor) o longa narra a história da garota Babydoll, a bela Emily Browning que depois de um acidente causado por uma situação desesperadora, é confinada em um hospício por seu padrasto. Faltando cinco dias para a chegada do médico que vai lobotomizá-la, encontra em sua imaginação uma maneira de se proteger. É nesse mundo de fantasia que, com a ajuda de suas amigas Rocket (Jena Malone), Blondie (Vanessa Hudgens), Sweet Pea (Abbie Cornish) e Amber (Jamie Chung), Babydoll terá que executar um plano desesperado, sua única chance de salvação. Ela se imagina vivendo em uma espécie de cabaré-prisão onde as detentas devem participar de shows burlescos montados para uma clientela selecionada. E este é apenas o primeiro nível de seus esforços imaginativos, já que ocasionalmente ela escapa para um segundo universo no qual é uma super-heroína (de videogames, provavelmente) que deve cumprir missões específicas planejadas por um sujeito misterioso, o sumido Scott Glenn.

Com uma narrativa que não tem espaço para sutilezas, o filme vai se desenvolvendo como os outros projetos do diretor, com cenas fortes, mas filmadas com a mais pura beleza, o que já nos mostra que seu estilo se diferencia de outros diretores de sua geração, sempre prezando pelo visual (como citei anteriormente), compondo um painel com grande quantidade de cores em certos momentos, e em outros com muitos tons acinzentados.

Com referências de A Origem, Moulin Rouge, Um Estranho no Ninho e porque não dizer de Showgirls, o filme vai tomando contornos de jogo de videogame, onde a nossa heroína vai ter que vencer fases, recuperar itens e chegar ao próximo estágio. Tudo isso com instruções que parecem mensagens de biscoitos da sorte proferidos por Scott Glen.

No meio dessa salada pop Zach Snyder desenvolve ou desenrola seu filme com um monte de referencias a RPG’s, videogames, cultura CyberPunk, entre outras, passaria o resto do dia para determiná-las.

E é justamente por isso que seu filme perde em conteúdo de cinemão pipoca, sendo um diretor egresso de videoclips, nas cenas de ação, o filme parece um amontoado de clips que foram se juntando com um fiapo de história e belas imagens e daí se tirou a película. Cinema não é um amontoado de clips, precisa ter uma historia bem contada, personagens bem desenvolvidos e o principal, que o maestro de tudo isso saiba o que está fazendo, que caminho está tomando.

Com um elenco feminino tentador, as interpretações soam rasteiras e, às vezes, canastronas, não tendo um desenvolvimento de personagens. Com uma protagonista que em diferentes emoções não muda a fisionomia, fica muito difícil acreditar que aquilo tudo possa ser verdade. Pelo pouco desenvolvimento de personagens, em momento algum conseguimos nos identificar com os dramas pessoais de cada um, um exemplo disso, uma das grandes promessas mirins, a atriz Jena Malone, simplesmente leva o filme no automático, enquanto outras mal abrem a boca. No elenco adulto há de se ressaltar o ator Oscar Isaac, que se parece bastante com Rodrigo Lombardi (aquele ator Global que a mídia empurra goela abaixo dizendo ser um galã), tem uma atuação tão caricata quanto. A única exceção é a atriz Carla Gugino, que se sobressai como a psicóloga do sanatório, mas nada que impressione. O longa mostra-se obviamente apaixonado por suas atrizes ao mesmo tempo em que estabelece os personagens masculinos como criaturas gordas, suadas, violentas e repulsivas, o que não é necessariamente ruim.

Contudo, a película, tem seus pontos positivos. As cenas de ação são muito bem orquestradas, devido a grandeza de detalhes e sua beleza sendo melhor apreciados na sala escura, o som do filme é muito bom, os efeitos são muito bem encaixados durante a projeção e finalmente, a trilha sonora, maior êxito de Sucker Punch, que nos brinda com versões de musicas de bandas como o Pixies (Where is my mind), o potente The Stooges (Search and Destroy), cantado com a mesma fúria por um grupo a um bom tempo sumido Skunk Anansie, Bjork, e Sweet Dreams do Eurythmics, são exemplos.

Circula na internet um fato curioso, o filme foi muito comparado a um dos grandes filmes do ano passado, A Origem, de Christopher Nolan, por se tratar de universos desconhecidos, de pensamento dentro de pensamentos, e por referências a outros assuntos. Os defensores alegam que o filme do Nolan era muito explicativo, e que poucas pessoas enxergaram as referencias contidas neste (Sucker Punch). Tenho certa opinião, que para um filme ser bom não precisa que você saiba todas as referencias dele, mas que você sinta o filme, que ele cative, e que, acima de tudo, o contador nos passe a sensação que tudo aquilo visto na tela está acontecendo, nos levando a embarcar na história, uma coisa que em momento algum consegui.  Acredito que era um filme com um grande potencial, mas o idealizador não enxergou da maneira que deveria, o excesso de megalomania falou mais alto. Sendo o primeiro erro numa carreira que acredito ainda ser promissora, as falhas cometidas podem se transformar em acertos num futuro próximo. Deus queira que esse acerto, seja no próximo filme, a nova reinvenção do Superman.

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~ por Zach em março 31, 2011.

2 Respostas to “Sucker Punch – Mundo Surreal”

  1. Inegavelmente as imagens são perfeitas, mas peca pela ausência de conteúdo.

  2. Olá Zach, obrigado por passar lá no tirafilmes.

    Bom, eu não sei se dá para chamar Sucker Punch de erro na carreira de Snyder, acho que com o passar dos anos esse filme vai conquistar a sua vaga nas prateleiras de todo entusiasta de cinema pois oferece algo mais substâncial, porém não em termos de enredo mas cinematograficamente. É uma boa experiência, mas de boa, espero que com o Super-Homem o Snyder coloque mais o pé no chão, foque-se em mostrar bons personagens, e sim, o Super-Homem quando bem trabalhado é um personagem complexo e instigante, e dê um tempo com o slow-motion….

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